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APROFUNDAMENTO TEOLÓGICO - A MATERNIDADE DIVINA: Theotókos, Mãe de Deus, solenemente proclamado pelo Concílio de Éfeso.

A Maternidade Divina

Theotókos, Mãe de Deus, solenemente proclamado pelo Concílio de Éfeso (431).  Em que sentido Maria é Mãe de Deus? O Eterno teve início?

 

Qual a pessoa que nasce de Maria? A segunda Pessoa da Ssma Trindade, que dela assumiu a carne humana.  Maria, porém, não é mãe apenas da carne humana, mas de toda a realidade do seu Filho, que tinha uma só Pessoa (a Divina).  Daí dizer-se que Maria é Mãe de Deus, enquanto Deus feito homem. Vejamos:

q  Deus escolheu Maria, por mera gratuidade, para ser Mãe Santa.  Para tanto encheu-a de graça, fê-la kecharitoméne.  Maria correspondeu fielmente ao dom de Deus, dizendo-se e fazendo-se a serva do Senhor (Lc 1,38-44);

q  Maria concebeu o Filho de Deus de maneira livre e generosa. Para isto devia ter certo conhecimento do dom e da missão que lhe eram propostos (não se tratava de conhecimento pleno – Lc 2,50);

q  Maria concebeu o Filho de Deus numa atitude de fé teologal. Dizem os antigos Padres da Igreja que ela concebeu em seu espírito antes que no seu seio. Ela acolheu primeiramente a palavra das Escrituras pela fé para poder acolher o Verbo de Deus em seu seio materno. Em todos os cristãos este mistério se reproduz, ao menos em parte, pois Deus nasce no coração dos homens pela fé. (Lc 8,21; 11,28);

q  Maria foi escolhida como filha de Sião ou como membro de um povo chamado a gerar o Messias. Isto quer dizer que o Sim de Maria é o Sim de uma coletividade; é o Sim de todo o gênero humano, o chamado a se prolongar na Igreja através dos séculos;

q  Maria é privilegiada, mas ela se intitula “servidora de Deus e dos homens” (Lc 1,38.48). O próprio Jesus ensinou que “o maior deve ser como aquele que serve” (Lc 22,26; Jo 12,13-15).

 

SIGNIFICADO DA MATERNIDADE VIRGINAL

A IDENTIDADE DE JESUS

O Filho de Deus se fez homem sem ter pai na terra, pois já tinha Pai no Céu; como Deus, era Filho do Pai Eterno; como homem, tornou-se Filho de Maria; Maria foi fecundada pela ação direta do próprio Deus. A geração virginal foi o modo pelo qual o Pai quis exprimir na carne humana a sua paternidade em relação a Jesus. Este não é um mero homem como os outros homens, mas é Deus e homem; por isto nasceu como nenhum homem nasceu.

 

O teólogo protestante Karl Barth (+1968), afirma que a fórmula do Credo “nascido de Maria Virgem”, indica a soberania da ação de Deus; significa “Ter nascido como jamais alguém nasceu, ter visto a luz de maneira biologicamente tão impossível quanto é impossível a ressurreição de um morto, isto é, ter sido chamado à vista não em conseqüência de intervenção do varão, mas unicamente por gravidez da mulher”.

 

A concepção virginal de Maria está muito mais ligada à identidade de Jesus do que à de Maria.  Toda a figura de Maria – rica de graça – é essencialmente função da figura de Jesus, como todo o culto a Maria é marcadamente cristocêntrico. Cancelar a virgindade de Maria seria indiretamente cancelar o aspecto principal da identidade de Cristo.

 

IRRUPÇÃO DO SOBRENATURAL

         “Sobrenatural” é dom de Deus (suave e discreto) que está acima das exigências de qualquer criatura. O plano de salvação que Deus concebeu para o homem, tem um objetivo sobrenatural: levar os homens à comunhão com a Vida de Deus, fazendo-os filhos no Filho e habilitando-os à visão face-à-face da Beleza infinita.

 

         A maternidade virginal de Maria significa que não é o homem que dá a si mesmo a salvação, nem ele é capaz de a provocar.  Como a virgem não recebeu do homem, mas de Deus, o seu Filho, assim nós recebemos a salvação de Deus como dádiva totalmente gratuita. Assim, a salvação do homem é graça; ela não se deve nem “à vontade da carne, nem à vontade do homem”, mas à livre e soberana iniciativa de Deus (Jo 1,13).

 

         A superação das leis ordinárias da biologia vem a ser também o prenúncio da nova geração ou da regeneração que Cristo oferece a todos os que nele crêem e a Ele se incorporam pelo Batismo; este é um renascer, que não se faz conforme as leis da biologia, mas segundo o Espírito (Jo 3,3).

 

O PAPEL DA MULHER

         A maternidade virginal de Maria põe em evidência o papel da mulher na obra salvação do gênero humano. Esta prerrogativa da mulher não se realizou apenas no plano fisiológico.  Maria disse o seu Sim antes de conceber o Filho (Lc 1,38). Este sim foi dito em nome de todo o gênero humano; assim uma mulher tornou-se uma representante de toda a humanidade no diálogo decisivo do Criador com a criatura. Concedendo tão valiosa função à mulher, o Senhor Deus quis abrir o caminho à exaltação da mulher e mostrar a importância que Ele atribuiria a esta Igreja.

 

         O Filho de Deus assumiu a natureza humana escolhendo o sexo masculino. Essa escolha podia parecer um privilégio concedido a um sexo em detrimento do outro. Na verdade, porém, o plano de Deus incluía a colaboração de ambos os sexos: a uma mulher – Maria – o Criador reservou a função de representar o gênero humano inteiro diante do anúncio da vinda do Salvador. Em Cristo vemos, com toda a Tradição, o segundo Adão (Rm 5,14; 1Cor 15,45-49), e em Maria a nova Eva. Unindo a Virgem-Mãe e o Salvador se Filho, o Pai Celeste realizou a mais perfeita associação do homem e da mulher que jamais tenha ocorrido.

 

NOÇÃO POSITIVA DA VIRGINDADE

Muitos dos que rejeitam a virgindade de Maria, talvez o façam por ter da virgindade uma idéia negativa. Poderiam pensar que a relação carnal é moralmente impura e transmissora do pecado; por isto, Maria não teria tido cópula sexual.  Ora esta noção é falsa; a pureza e santidade podem ocorrer também no matrimônio cristão plenamente vivido. Numa autêntica visão de fé, a virgindade de Maria apresenta três aspectos positivos.

·         Significa total abertura à ação do Espírito. Não conhecendo homem, Maria estava destinada a estreitar-se na mais íntima união com Deus. A essência da vida virginal, não é algo de meramente negativo, mas é a realização do amor em seu grau supremo e com o ser Perfeito.

·         A virgindade de Maria está ligada também à maternidade. Não é privação de fecundidade, mas é fecundidade concedida diretamente por Deus. Algo de semelhante se dá em todo cristão que abrace a vida uma ou indivisa por amor ao Reino dos céus;

·         A maternidade virginal de Maria, vivida no casamento com José, significa que a virgindade não empobrece o coração e os afetos humanos; Maria desenvolveu autêntico amor de esposo para com José.  A mais intima adesão a Deus não sufoca o amor legítimo da criatura para com as criaturas. A presença de Maria nas bodas de Cana e a sua intervenção para obter o vinho necessário à continuação da festa de núpcias confirmam a orientação positiva da virgindade em relação ao matrimônio. A atuação de Maria em Cana é sinal de que à virgindade toca a missão de sustentar o matrimônio e obter-lhe a graça do autêntico amor.

 

O PROPÓSITO DA VIRGINDADE

         As palavras de Maria: “Como se fará isso, pois não conheço varão?” (Lc 1,34) não insinuam necessariamente um voto, o desejo de entregar integralmente a Deus. Antes de dar consentimento ao anúncio do anjo, Maria quis saber como se conciliaria essa entrega total com a mensagem da maternidade. Uma tal afirmação de virgindade é inédita e desconcertante para a mentalidade dos judeus.

 

         O propósito da virgindade de Maria, surpreendente como era, significava a transição da Antiga para a Nova Aliança; escolhendo voluntariamente a vida una ou virginal, Maria (e, com ela, a mulher cristã) encontra novo modo de auto-realização. Após Maria, o ideal da virgindade devia ser intensamente cultivado na Igreja; é a resposta mais cabal que o cristão possa dar ao Senhor, desde que tome consciência de que o Reino de Deus já chegou (1Cor 7,25-35).

 

         A virgindade de Maria não significa desprezo da sexualidade.  Ela se prende mais à identidade do Salvador do que à de Maria, pois põe em relevo a filiação divina de Jesus. Ela pertence ao âmago da mensagem cristã.

 

OS REFORMADORES PROTESTANTES E MARIA

         Lutero foi formado na tradição católica, em seu comentário sobre o Magnificat (Lc 1,46-55): “Ó bem-aventurada Mãe, Virgem digníssima, recorda-te de nós e obtém que também em nós o Senhor faça essas grandes coisas!”

 

         Calvino (Genebra-Suiça), mais radical que Lutero.  Imprimiu notas pessoais à Reforma, entre as quais as do presbiterianismo. Em relação a Maria, professa a Maternidade virginal. Ao comentar a frase: “Bem-aventurada me dirão todas as gerações”, julga que Maria assim “proclamava uma tão grande dádiva de Deus que não era lícito silencia-la...Reconhecemos que este dom foi altamente honroso para Maria. De boa vontade seguimo-la como mestra e obedecemos aos ensinamentos e preceitos da Virgem”.

 

         Ulrico Zvínglio (Suíça) iniciou uma reforma, posteriormente absorvida pelo Calvinismo. Escreveu: “Creio firmemente que, segundo o Evangelho, Maria, como Virgem pura, gerou o Filho de Deus e no parto e após o parto permaneceu para sempre Virgem pura e íntegra. Também acredito firmemente que ela foi por Deus exaltada acima de todas as criaturas bem-aventuradas (homens e anjos) na eterna bem-aventurança”.

 

         Como se vê, os mestres da Reforma foram muito mais fiéis a Maria do que os seus discípulos.  No Protestantismo contemporâneo nota-se uma volta às origens, veja o trecho tirado de um Catecismo Luterano: “Maria...é apresentada como aquela de maneira exemplar a palavra de Deus, como a serva do Senhor que diz à palavra de Deus, como a cheia de graça que por si mesma nada é, mas que é tudo por bondade de Deus. É, com efeito, o modelo original dos homens que se abrem a Deus e se deixam enriquecer por Ele, o modelo original da comunidade dos fiéis, da Igreja...”.

 

A PALAVRA DO PAPA

UM CONCÍLIO IMPORTANTE

         Ano de 392, a cátedra de S. Pedro era ocupada pelo Papa Sirício. Em Cápua celebrou-se um importante Concílio com a participação de Bispos provenientes de várias regiões do Oriente, e pela gravidade das questões: O cisma de Antioquia e o exame da doutrina de Bonoso, que negava a perpétua virgindade de Maria.  O Papa Sirício acompanhou com vigilante atenção. S. Ambrósio de Milão deixou neles a marca da sua personalidade forte e prudente.

 

NA LUZ DA ENCARNAÇÃO DO VERBO

         Os Padres da Igreja perceberam com clareza que a virgindade de Maria, antes de construir uma “questão mariológica”, é um “tema cristológico”.  A virgindade da Mãe é uma exigência da natureza divina do Filho; é a condição concreta em que, segundo um livre e sapiente desígnio divino, se efetuou a encarnação do Filho eterno, d’Aquele que é “Deus de Deus”.  Só Ele é santo, só Ele é o Senhor, só Ele é o Altíssimo.  Para a tradição cristã, o seio virginal de Maria, fecundado pelo Pneuma divino sem intervenção de homem, tornou-se , como o madeiro da cruz ou as ligaduras do sepulcro, motivo e sinal para reconhecer em Jesus, o Filho de Deus.

 

COM PROFUNDO SENTIDO DE VENERAÇÃO

         Na reflexão adorante sobre o mistério da encarnação do Verbo, foi detectada uma relação particularmente importante entre o início e o fim da vida terrena de Cristo.  Entre a concepção virginal e a ressurreição de entre os mortos, duas verdades que se ligam intimamente à fé na divindade de Jesus.

 

         Elas pertencem ao depósito da fé, são professadas pela Igreja inteira e enunciadas expressamente nos Símbolos da fé.  A história demonstra que dúvida ou incerteza sobre uma repercutem inevitavelmente sobre a outra, como, ao contrário, a humildade e forte adesão a uma delas favorece o acolhimento cordial da outra. Assim, podemos dizer que a virgindade de Maria no parto tem seu paralelo no final da vida terrestre de Jesus: Este, ressuscitado, atravessava as paredes do Cenáculo sem as rasgar, como o fizera em relação a Maria SSma, quando nasceu.

 

         Elas pertencem ao depósito da fé, são professadas pela Igreja inteira e enunciadas expressamente nos Símbolos da fé. A história demonstra que dúvida ou incerteza sobre uma repercutem inevitavelmente sobre a outra, como, ao contrário, a humilde e forte adesão a uma delas favorece o acolhimento cordial da outra.

 

OS FATOS

         Na confissão de fé na virgindade da Mãe de Deus, a Igreja proclama como fatos reais que Maria de Nazaré:

·         Concebeu verdadeiramente Jesus, por obra do Espírito Santo, sem intervenção de homem;

·         Deu à luz, verdadeiramente e virginalmente, o seu Filho, razão pela qual depois do parto permaneceu virgem; virgem também no que se refere a integridade da carne;

·         Viveu, depois do nascimento de Jesus, em total e perpétua virgindade; e, juntamente com José, também ele chamado a desempenhar um papel primário nos eventos iniciais da nossa salvação, se dedicou ao serviço da pessoa e da obra do Filho.

 

Afirmar a realidade da concepção virginal de Cristo não significa que, em referência a ela, se possa fornecer uma prova apodídica te tipo racional.  A concepção virginal de Cristo é uma verdade revelada por Deus, que o homem acolhe em virtude da obediência da fé (Rm 16,26).  Só quem está disposto a crer que Deus age na realidade intramundana e que a Ele, “nada é impossível” (Lc 1,37), pode acolher com devota gratidão as verdades da Kénosis do Filho eterno de Deus e da sua concepção-nascimento virginal, do valor salvífico universal da sua morte na cruz e da ressurreição verdadeira, no próprio corpo, d´Aquele que foi suspenso e morreu no madeiro da cruz.

 

O SIGNIFICADO DOS FATOS

         Na pesquisa do sentido oculto, abre-se ao teólogo um campo de trabalho vasto, fecundo e exaltante.  Investigar o evento salvífico da concepção e do nascimento de Cristo, bem como a virgindade perpétua de Maria, virá a encontrar-se, por assim dizer, em contato com a Escritura inteira.  Eles indicam que expressões tais como Theotókos ou Virgo Mater, se lidas em profundidade e com atenção às múltiplas vozes convergentes, são como que síntese da economia salvífica.

 

DE MODO INTEGRO E CORRETO

         Na exposição da doutrina exige que sejam evitadas posições unilaterais, exagerações ou distorções. A afirmação da virgindade de Maria deve ser feita de modo em que nada, direta ou indiretamente, apareçam diminuídos o valor e a dignidade do matrimônio, querido por Deus, por Ele abençoado.

 

         Certamente o clima cultural do nosso tempo nem sempre é sensível aos valores da virgindade cristã.  O teólogo deve ser animado pela confiança serena em que os valores, autenticamente evangélicos, são válidos para o homem e a mulher contemporâneos, mesmo quando estes os ignoram ou os transcuram.

 

         A virgindade é dom e graça. Ela é um bem da Igreja, do qual participam também aqueles que não são chamados a vivê-la na própria carne, mas embora sempre no próprio coração.  Compete ao teólogo indicar as razões que podem ajudar o homem e a mulher do nosso tempo a redescobrirem os valores da virgindade, mostrar como em muitos casos a virgindade é sinal de liberdade interior, de respeito pelo outro, de atenção temporal (Mt 22,30), de viver radicalmente ao serviço do Reino.

 

EM SÍNTESE

         O S. Padre renunciou expor teorias biológicas que nos últimos tempos foram apresentadas para elucidar a partenogênese, como se pudesse enquadrar o caso de Maria em alguma ocorrência conhecida pelas ciências médicas.  Deus pode fazer o que Ele quer com os elementos que Ele escolhe, por mais ineptos que pareçam.  É Deus quem toma a iniciativa de salvar o homem gratuitamente, e não é o homem que provoca Deus para realizar atos salvíficos.

 

 
fonte da notícia: ISCR - Inst. Sup. Ciencias Rel (anotações). inserido por: Caridade
 
 
 
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